Será o aleatório… aleatório? – Falácia do Apostador

Música é uma parte essencial do meu dia-a-dia. Assim, de forma a criar uma experiência musical mais agradável e desafiante, procuro sempre colocar a lista de reprodução em modo aleatório ou shuffle.

No entanto, por vezes questionava-me o porquê de, em uma playlist de 800+ faixas, ficar com a sensação de que algumas músicas tocavam de forma mais frequente que outras, sendo que algumas pareciam mesmo ficar excluídas da lista de reprodução.

Foi então que tropecei neste artigo da Spotify Labs, onde é explicado em detalhe o fenómeno que levou a que o meu cérebro influenciasse a minha percepção dos padrões de reprodução e identificasse o aleatório como… algo não aleatório.

Nesse mesmo artigo, fui apresentado também pela primeira vez à expressão Gambler’s Fallacy, ou em português, Falácia do Apostador, que se correlaciona diretamente – não com a aleatoriedade, mas com a nossa percepção dela e dos fenómenos que a envolvem.

 

A Falácia do Apostador

“Falácia do Apostador”, também conhecida como Falácia de Monte Carlo (devido a um fenómeno ocorrido no passado que será referido mais abaixo) é o nome dado à “crença de que a ocorrência de desvios no comportamento esperado para uma sequência de eventos independentes de algum processo aleatório implica na maior probabilidade de se obter, em seguida, desvios na direção oposta”. É então, basicamente, a suposição de que eventos passados possam ter influência no resultado de eventos futuros.

russian_roulette

Ou seja, é neste exato princípio que as casas de apostas se financiam e geram lucros substanciais de ano para ano. De acordo com a falácia do apostador, o nosso cérebro humano tende a interpretar um mau resultado como simplesmente mais um passo no caminho certo. Por mais motivador e esteticamente atraente que seja esse raciocínio, a verdade é que, em termos lógicos, não faz sentido algum.

Exemplifiquemos: Depois de 2-3 rondas “azaradas” nas slot machines, o nosso cérebro compele-nos a continuar a insistir, levando-nos a crer que, uma vez que já tivemos azar 2-3 vezes seguidas, as possibilidades de na próxima ronda termos “sorte” são maiores.

No entanto, sabemos que tal não é o caso. Em termos analíticos, a cada nova ronda, as possibilidades de sucesso são exatamente as mesmas, uma vez que as variáveis em jogo (casos possíveis e casos favoráveis) se mantém intatas.

E é da dificuldade da mente humana em aceitar esta lógica que as casas de apostas fazem o seu lucro.

roulette-anglaise-monaco-1100x358

O maior exemplo de sucesso, muito possivelmente de sempre, registou-se a 18 de Agosto de 1913, no Casino de Monte Carlo, quando, no decorrer de um jogo de roleta, a bola caiu por 26 vezes consecutivas em casas da mesma cor (preta). Já imaginou as probabilidades de tal realidade?

67,108,863. É este o número de combinações diferentes que poderiam ter ocorrido durante essas 26 repetições.

No final de tudo, a generalidade dos apostadores saiu com perdas enormes, uma vez que apostar contra o preto parecia ser a aposta mais inteligente, sendo que, na verdade, era tão provável quanto apostar a favor…

 

Então…

A Falácia de Monte Carlo é o exemplo perfeito do fenômeno que me fez duvidar da aleatoriedade da lista de reprodução do meu reprodutor de música e é o mesmo que leva a que “coincidências” do dia-a-dia sejam confundidas por “sinais do destino” ou que acontecimentos improváveis sejam tidos como “milagres”.

Na procura incessante por padrões, o nosso cérebro acaba por vezes por perder o foco da lógica, por mais simples que ela se nos apresente e deixa-se levar por ligações que, na realidade, não estão lá.

Numa playlist com 1000 músicas, “aquela” música especial toca 10 vezes seguidas? Por mais difícil que seja de acreditar, não se trata de algum “sinal” dos céus ou chamamento do passado. É, nada mais, nada menos do que aleatoriedade, em toda a sua concreticidade abstrata.

About This Author

Freelancer, Blogger e Estudante de Engenharia Informática no Instituto Superior de Engenharia de Coimbra.

Post A Reply